O ataque da família nuclear contra o estado

A família nuclear, definida como um casal monogâmico criando sua descendência mútua, é a primeira e última defesa da propriedade privada e, por extensão, da própria civilização. Infelizmente, o marxismo cultural está progressivamente erodindo esses pilares fundamentais da civilização, tornando-se a maior ameaça ao nosso modo de vida e padrão de vida.

A Revolução Neolítica, conforme descrita por Hans-Hermann Hoppe em A Short History of Man, foi o avanço intelectual humano de maior magnitude. Hoppe elabora:

“A instituição da propriedade privada da terra e da família e a prática da agricultura e da pecuária é explicada como uma invenção racional, uma solução nova e inovadora para o problema enfrentado pelos caçadores e coletores tribais de equilibrar o crescimento populacional e a crescente escassez de terras.”[1]

Antes disso, seres humanos sobreviveram em sociedades caçadoras-coletoras que esgotaram, porém nunca reabasteceram, os bens fornecidos pela natureza em seu ambiente.

Isso significava que cada indivíduo estava em competição direta com todos os outros indivíduo pelos bens dados pela natureza, resultando em um conflito violento. Contudo, tal conflito foi moderado uma vez que os humanos reconheceram os benefícios da cooperação com base na divisão do trabalho. Como Hoppe explica, a divisão do trabalho aumenta a produtividade porque existem tarefas que excedem o poder de qualquer homem isolado e exigem os esforços combinados de vários homens. Além disso, a divisão do trabalho se beneficia das diferentes habilidades dos indivíduos e leva em conta a escassez do tempo. Hoppe expõe:

“Dada a natureza peculiar e parasitária das sociedades caçadoras-coletoras e assumindo que a terra era fixa, invariavelmente, deve surgir o momento em que o número de pessoas supera o tamanho ideal do grupo e o padrão de vida médio cairá, ameaçando qualquer grau de solidariedade intragrupo que anteriormente poderia ter existido … Essa situação é capturada e explicada pela lei econômica dos rendimentos decrescentes… que afirma que, para qualquer combinação de dois ou mais fatores de produção, existe uma combinação ideal (de tal forma que qualquer desvio dela envolva desperdícios materiais ou “perdas em eficiência”).[2]

A invenção tecnológica que então resolveu o problema de um constantemente emergente e re-emergente “excesso” de população e a concomitante queda do padrão de vida médio foi uma mudança revolucionária em todo o modo de produção. Isso envolveu a mudança de um estilo de vida parasítico para uma vida genuinamente produtiva. Em vez de meramente se apropriar e consumir o que a natureza havia fornecido, os bens de consumo agora eram ativamente produzidos e a natureza aumentada e melhorada. Esta mudança revolucionária no modo de produção humano é geralmente referida como a “Revolução Neolítica”: a transição da produção de alimentos por caça e coleta para a produção de alimentos pela criação de plantas e animais… A nova tecnologia representou uma conquista cognitiva fundamental e foi refletida e expressa em duas inovações institucionais inter-relacionadas que desde então até hoje se tornaram a característica dominante da vida humana: a apropriação e o emprego de terra como propriedade privada e o estabelecimento da família e do domicílio familiar.”[3][4]

Antes do estabelecimento da terra como propriedade privada, ela era apenas uma parte do meio ambiente, mas com o advento da agricultura e da criação de animais, tornou-se necessário ter fronteiras objetivamente definidas em terras para evitar conflitos com os recursos de outras famílias. A apropriação original e a troca voluntária foram reconhecidas como o melhor meio para evitar conflitos relacionados à terra e aos recursos escassos. No entanto, a apropriação de terras como propriedade para uso na agricultura e criação de animais resolveu apenas metade da crescente pressão populacional. O uso da terra para aumentar a produtividade não abordou a questão dos custos de reprodução. É importante notar que antes da Revolução Neolítica, as crianças eram consideradas responsabilidade de todos, portanto, cada indivíduo não tinha a responsabilidade de arcar com o custo de produzir recursos suficientes para as crianças que ele/ela pessoalmente produzia. Hoppe explica melhor:

“Instintivamente, em virtude da natureza biológica do homem, cada mulher e cada homem são levados a espalhar e proliferar seus genes na próxima geração da espécie. Quanto mais descendentes se cria, melhor, porque mais de seus genes irá sobreviver. Sem dúvida, esse instinto humano natural pode ser controlado por deliberações racionais. Mas se pouco ou nenhum sacrifício econômico deve ser feito para simplesmente seguir seus instintos animais, ja que todas as crianças são mantidas pela sociedade em geral, então não existe ou há pouco incentivo para empregar a razão nas questões sexuais, i.e., para exercer qualquer restrição moral.”[5]

Thomas Malthus no “An Essay on the Principle of Population”, explica então que:

“O mais natural e óbvio obstáculo (sobre a população) parecia ser fazer com que cada homem provesse seus próprios filhos; que isso funcionaria em algum aspecto como uma medida e um guia no aumento da população, como se poderia esperar que nenhum homem trouxesse seres ao mundo para os quais ele não conseguisse encontrar os meios para sustentá-los; que onde esse era o caso, era necessário, para o exemplo dos outros, que a desgraça e o inconveniência que atinjam tal conduta caíssem sobre o indivíduo, que, sem consideração, mergulhava a si mesmo e as inocentes crianças na miséria e necessidade. – A instituição do casamento, ou pelo menos, de alguma obrigação expressa ou implícita em cada homem de sustentar seus próprios filhos, parece ser o resultado natural desses raciocínios em uma comunidade sob as dificuldades que temos suposto.”[6]

Através da formação de famílias monogâmicas, o estilo de vida tribal caçador-coletor foi transformado em famílias separadas possuidoras de setores particulares de terra onde sustentavam a si mesmas. Assim, a família monogâmica possuindo terras para produzir os recursos de que necessita para assegurar sua própria sobrevivência, seja pela agricultura ou a criação de animais ou uma combinação destes, tornou-se a fundação da civilização. As normas de propriedade privada de apropriação original e troca voluntária formaram a base de uma sociedade não-agressiva, ainda que competitiva, baseada nos benefícios mutuamente reconhecidos da divisão do trabalho. Ludwig Von Mises tinha isso a dizer:

“Propriedade privada dos meios de produção é o princípio regulador que, dentro da sociedade, equilibra os meios limitados de subsistência à disposição da sociedade com a menos limitada capacidade dos consumidores em aumentar. Ao fazer a parte no produto social que recai sobre cada membro da sociedade depender do produto economicamente imputado a ele, isto é, ao seu trabalho e à sua propriedade, a eliminação de seres humanos excedentes pela luta pela existência, à medida em que se desencadeia no reino vegetal e animal, é substituída por uma redução na taxa de natalidade como resultado das forças sociais. ‘Restrição moral’, as limitações de reprodução impostas pelas posições sociais, substitui a luta pela existência.”[7]

É preciso tempo e recursos de ambos os pais para educar as crianças com sucesso. Crianças, especialmente bebês, dependem inteiramente dos recursos fornecidos por seus pais. Eles são incapazes de realizar qualquer trabalho necessário para sustentar suas próprias vidas no início e, à medida que crescem, adquirem as habilidades necessárias para serem inteiramente responsáveis ​​por si mesmas. Isso significa que o requisito mínimo para criar uma criança é dois pais que produzam mais do que eles próprios consomem. Os recursos que uma criança exige são muitas vezes mais do que qualquer pai pode fornecer sozinho. É mutuamente benéfico para os pais dividirem a mão-de-obra para criar com sucesso seus filhos. Crianças criadas em uma família estável com os dois pais também aprendem o valor de escolher o parceiro monogâmico correto. Fazer a escolha errada em com quem começar uma família é aquela escolha que afeta negativamente múltiplas vidas e tem ramificações de longo alcance em toda a sociedade. A ausência de qualquer um dos pais aumenta consideravelmente a probabilidade de essa família se voltar ao estado para fornecer os recursos necessários para viver. Também aumenta muitos fatores de risco para a criança, incluindo abuso físico, uso de drogas, comportamento agressivo, suicídio, etc. A presença de padrasto/madrasta ou outros pais não-biológicos leva a um aumento ainda maior desses fatores de risco em relação a casas com dois pais biológicos. Para mais informações sobre isso, leia o How Single Mothers and Feminism Ruin Children, [“Como as mães solteiras e o feminismo prejudicam as crianças” – Em tradução livre].

A redistribuição forçada da riqueza pelo estado influencia negativamente as decisões das pessoas sobre com quem começar uma família ao subsidiar escolhas irresponsáveis. Os programas de bem-estar social do estado são ostensivamente destinados a ajudar os pobres e os oprimidos, mas, na realidade, são uma força descivilizadora que prejudica a família nuclear. O estado coercitivamente redistribui a riqueza de famílias produtivas com dois pais para famílias monoparentais. Portanto, um único pai já não enfrenta a perspectiva de estar sem recursos suficientes para sobreviver, o que os torna comparativamente menos inclinados a serem tão seletivos ao escolher um companheiro. Sem programas de bem-estar social do estado, os indivíduos são comparativamente mais incentivados a permanecer e a ser mais seletivos ao escolher um parceiro por razões financeiras e sociais. Stefan Molyneux elabora:

“Crianças criadas por mães solteiras são muito mais propensas a viver na pobreza, a ser abusada, a cometer agressão, a ser presa, a sofrer de dependência de drogas e de abuso de álcool, a ser vítima e a ser perpetradores de agressão sexual,  a abandonar o ensino médio, a assassinar, a cometer suicídio, a fugir de casa ou a se tornar morador de rua.”[8]

Claramente, é benéfico a uma sociedade civilizada ter famílias com dois pais biológicos. Apesar das claras vantagens das famílias nucleares, o estado incentiva famílias monoparentais por meio de assistência social e outros subsídios. O estado pode fornecer alguns dos recursos básicos que um único pai precisa, mas não pode substituir o investimento de tempo de um pai no desenvolvimento da criança e a ausência desse investimento de tempo é o que leva às questões descritas acima. Sem a suposta rede de segurança dos programas de bem-estar do estado, todos os indivíduos estariam muito mais preocupados em encontrar um potencial parceiro monogâmico que fosse muito mais propenso a ser um pai leal e com recursos. Os indivíduos procurariam um parceiro que prometeu trabalhar para criar seus descendentes em uma casa estável com dois pais. As consequências da escolha de um parceiro potencialmente ruim seriam muito mais graves em uma situação sem um resgate estatista. Na ausência de um programa de bem-estar social do estado, qualquer pessoa que quisesse criar uma família gastaria tempo e esforço consideráveis ​​para se certificar de que seu potencial parceiro compartilha de seus valores e é um provedor capaz.

A melhor forma de ajudar a alcançar uma sociedade sem estado é encontrar um parceiro monogâmico que entenda a importância da família nuclear, de produzir mais do que cada um de vocês consome, a planejar a divisão do trabalho para a família e, então, a criar sua prole para conhecer e entender os direitos de propriedade privada.

Artigo original aqui

Tradução de Daniel Chaves Claudino

Revisão por Larissa Silva Guimarães


Notas:

[1] A Short History of Man , Hans-Hermann Hoppe, p. 18.

[2] A Short History of Man, Hans-Hermann Hoppe, p. 42-43.

[3] A Short History of Man, Hans-Hermann Hoppe, p. 47-48.

[4] Understanding Human History, Michael H. Hart, p139.

[5] A Short History of Man, Hans-Hermann Hoppe, p. 62-63.

[6] Essay on the Principle of Population, Thomas Robert Malthus, ch. 10.

[7] Socialismo: Uma análise econômica e sociológica, Ludwig von Mises, p. 282.

[8] The Truth About Single Moms, Stefan Molyneux, Freedomain Radio, 2015.

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